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Análises

Paraguai – Análise da TV Paraguay

Quando a TV Pública se torna a notícia

* Daphne Arvellos

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No final de junho os noticiários de todo mundo tiveram em suas manchetes a deposição do então presidente paraguaio Fernando Lugo. Junto à série de suspeitas e aos históricos da crise que culminaram no impeachment do líder latino, também ganhou destaque nas reportagens a participação da televisão pública do país. Foco da resistência ao novo governo de Frederico Franco, ela afirmou sofrer censura política e ideológica por ser contra a legitimação do novo chefe de estado.

A Televisión Pública Paraguay ocupou assim parte cativa no jornalismo em vários países e colocou-se como fonte alternativa a veículos “comerciais” que costumam seguir as diretrizes do poder vigente. Em demonstração de apoio a emissora pública, vários outros representantes de seu setor demonstraram apoio a causa da resistência e também conquistaram espaço noticioso.

A presente análise tem como objetivo apresentar a situação que levou a essa ascensão da televisão pública na mídia internacional, bem como as repercussões dela decorrentes. Convém aqui abordar o papel da emissora como transmissora alternativa e independente de partidarismo político, tal como estipulado nas diretrizes desse segmento.

Instauração da resistência

A movimentação em frente à rua Alberdi, sede da TV Publica do Paraguai, começou logo após a destituição de Lugo, quando ainda na sexta-feira (23/06), segundo relataram funcionários da emissora, um enviado do novo presidente teria tentado censurar o conteúdo que era exibido. O próprio presidente, Federico Franco, se referiu a emissora para justificar a paz local dizendo que a programação era toda contrária ao atual governo.

A ocupação por manifestantes foi motivada por ações apontadas pelo veículo de censura de opiniões contrárias ao impeachment do antigo líder paraguaio. Nas noites que seguiram o dia da queda de Lugo, ganhou destaque na TV Pública o programa Micrófono Abierto (Microfone Aberto), onde pessoas podiam se inscrever em uma lista e falar sobre qualquer coisa. Na noite de sábado e o domingo, a atração foi transmitida por até 12 horas consecutivas e, como era de se esperar em tempos de grande fervor e mudanças políticas, o tema principal foi a destituição do ex-presidente. Ao contrário do que foi anunciado pelo novo líder, não eram todos que usavam o espaço para condenar o atual governo, mesmo que isso significasse enfrentar a grande maioria favorável à Lugo, que concentrada no local da emissora, segundo a cobertura dos veículos locais, se enfurecia, mas não reagia com violência.

Ao assistir o programa se via de tudo: líderes estudantis, contestação política misturada com pregação religiosa, apoiadores de Federico Franco, camponeses discursando em seus próprios dialetos, gente relatando o que sofreu durante a ditadura, músicos locais, poetas e muita gente acampada com cartazes na rua. De acordo com o diretor de programação da TV Pública, Augusto Neto, o espaço se tornou uma espécie de terapia de tamanha amplitude que teve sua duração acrescida na grade.

Junto à emissora pública, um grupo composto por estudantes de comunicação montou uma redação improvisada para alimentar as redes sociais, blogs e jornais eletrônicos com artigos e matérias que denunciam o que a imprensa paraguaia “não teria interesse em divulgar por estar sob o controle da elite”. Eles se diziam o apoio da televisão pública paraguaia que, mesmo sem dizer nada em seu nome, deixava aberto os microfones para que as pessoas “falassem por ela”.

Na madrugada de domingo (24/06), o presidente deposto Fernando Lugo surpreendeu os manifestantes, no ato apontado como organizado pela “TV Pública”, e apareceu no local por volta de 0h10. O ex-bispo fez um discurso criticando aqueles que o depuseram e afirmou que aceitou a destituição para evitar um novo massacre, como o ocorrido em março de 1999. No episódio citado, sete jovens foram mortos por atiradores de elite durante protesto em frente ao Congresso. Segundo Lugo, ele possuía informações de que um grupo preparava algo semelhante ao ocorrido no episódio que ficou conhecido como “Março Paraguaio” e aceitou o veredito injusto do Parlamento “pela paz e pela não violência”.

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Repressão

Na primeira noite de posse (22/06), Christian Vázquez, assessor do recém empossado Frederico Franco, visitou as instalações da televisão e anunciou-se como chefe de imprensa. Vázquez afirmou que a visita às instalações da Tv foi apenas para procurar um programa de microfone aberto, no qual o povo tem plena liberdade de se expressar em frente às câmeras sem nenhuma censura, e não para acabar com suas atividades. A respeito de tal visita, o novo presidente disse que não atropelou a TV Pública e que apenas foi se inteirar da programação. Mas segundo comunicado do canal 13, o assessor de Franco entrou na sede da emissora criada por Lugo acompanhado por policiais e outros homens e que exigiu encontrar-se com o diretor, sem querer se dirigir ao escritório dele.

Informações do Uol Notícias apontaram que durante a transmissão ao vivo de opiniões de manifestantes a respeito do momento político vivido pelo país após a deposição de Fernando Lugo, o sinal da Televisión Pública Paraguay ficou fora do ar por certo tempo. Segundo jornalistas da Telesur, o novo governo cortou o sinal da emissora na tarde de domingo, desligando a energia elétrica da área onde está instalado o transmissor. A transmissão foi mantida pelos funcionários apenas para a Internet, no portal não oficial da emissora (www.desdeparaguay.com/tvpublica). Ante à reação da população, a televisão voltou ao ar e se tornou referência da resistência anti-Franco.

O diretor da emissora pública, indicado por Lugo, deixou o cargo ainda no domingo. Marcelo Martinessi fez um pronunciamento em defesa da TV Paraguay, do direito a informação e comunicação. Durante o 18º Fórum de São Paulo, que terminou na sexta-feira (6/07), em Caracas, ele argumentou que “a televisão pública do Paraguai, junto a outros meios de comunicação comunitários, mantém resistência pacífica e de denúncia contra o golpe de Estado parlamentar que destituiu o presidente Fernando Lugo”.

Martinessi defendeu que contra esse golpe na democracia, a televisão manteve no ar o programa Microfone Aberto, de ampla participação popular, que se converteu em instrumento para romper com o cerco midiático, assegurou como ex-diretor, ao programa da rede venezuelana de televisão. Acrescentou ainda que gestores e trabalhadores continuam a resistência pacífica e reportam as arbitrariedades do governo de Federico Franco, em contraposição à articulação dos meios privados, que nos momentos do golpe transmitiram programas com temas sensacionalistas.

Na mesma ocasião, o jornalista paraguaio Guillermo Verón, destacou que um exemplo deste ataque constitui a declaração de “persona non grata”, formulada contra o chanceler Nicolás Maduro. Lembrou que isso ocorreu após a transmissão de um vídeo manipulado, onde Maduro aparece entrando em uma reunião com a cúpula militar paraguaia horas antes da destituição do presidente Fernando Lugo. “Na verdade, os chanceleres da União das Nações Sulamericanas se reuniram com diferentes setores, deputados, senadores, membros do Partido Colorado e da Corte Suprema de Justiça e também militares, em busca de uma solução para a crise política, em benefício do povo paraguaio”, explicou.

O posto de Martinessi foi ocupado por Judith Maria Vera, designada pelo Ministro de Comunicações Martin Sanneman. Ao assumir o cargo de Diretora interina da TV Pública, ela afirmou que estaria a frente de profissionais da televisão,e que, acima de tudo, pede que cada um cumpra a função que lhe foi dada. Ressaltou ainda que a emissora tem uma enorme responsabilidade com o país.

Três semanas depois da deposição de Lugo, informações publicadas pelo Portal Imprensa apontam que o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) Miguel Insulza considerou, durante apresentação do relatório da entidade no dia 10/07, que no Paraguai “a situação está normal [tanto] agora [quanto] no desenvolvimento da crise”. Disse ainda que não há sinais de violência e que “tudo funciona com normalidade”. Segundo o Portal Vermelho, no entanto, a realidade parece ser outra, pois jornalistas foram demitidos da TV Pública.

No mesmo dia 10/07, a jornalista Fátima Rodríguez anunciou por meio de uma carta sua demissão da TV Pública e denunciou o processo que culminou em sua saída. Como justificativa para a decisão, a emissora alegou que Fátima e outros colegas observavam uma foto em que estava escrito “Federico golpista”. Ela destacou que o ministro do novo regime, Martín Sanemann, disse, na ocasião, que era democrata e que chamaria para ‘conversar’ todos os que pensávamos que havia sido um golpe. Dois dias depois, em 6 de julho, ela e outros foram chamados no Recursos Humanos para assinar o documento de demissão.

 

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Apoio de outras rádios públicas 

Ao saber da resistência e posicionamento independente de governo da Tv Pública do Paraguaia, várias emissoras demonstraram solidariedade à causa. A União de Rádios Públicas da América Latina e do Caribe (UNRALYC) se manifestou em defesa da democracia. Nesse sentido, as rádios públicas que a integram se pronunciaram afirmando que denunciam a existência de ofensivas brutais das elites e dos setores econômicos concentrados. Defendem que os acontecimentos que se desenrolam no Paraguai possuem outros objetivos ao invés de gerar mudanças democráticas.

Por essa razão, a UNRALYC expressou sua solidaridade com o governo e o povo do Paraguai. “Em especial com os diretivos, trabalhadores e com o público das TV Pública do país”. Fazem parte da União, a Rádio Nacional de Argentina, Rádio Havana Cuba, Rádio Pública do Equador, Red Patria Nueva de Bolivia.

 

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Deposição pela mídia latina

Enquanto a Televisión Pública Paraguay focava em manter a resistência a deposição de Lugo, os jornais do Paraguai destacaram com unanimidade, durante o fim de semana (23 e 24 de junho), a posse de Federico Franco como "novo presidente". Eles apontam que a mudança aconteceu na sexta-feira, após um julgamento político de inusitada rapidez por "mau desempenho de funções". Os veículos informam a modificação da estrutura política do país sem resistência, ao contrário da cobertura e das ações tomadas por parte da Televisión Pública Paraguay.

Tanto os jornais Última Hora como La Nación apresentaram a mesma manchete: "Federico presidente", acompanhado de grandes fotos do político. O Última Hora destacou internamente que "Lugo aceitou o veredicto do julgamento e ratificou que saiu por culpa de uma máfia". A publicação também apontou que "Federico advertiu que não vai tolerar [o grupo guerrilheiro] Exército do Povo Paraguaio (EPP)". Já o La Nación observou em um subtítulo que "assume um mandatário liberal depois de 72 anos", fazendo referência ao fato de Franco pertencer ao Partido Liberal. O jornal acrescentou que "o Senado destituiu Lugo em um julgamento sumário criticado por seus prazos e acusações".

Por sua vez, o ABC Color trouxe como única chamada de capa: "Assume Federico com amplo apoio político", acompanhada de uma foto em que ele aparece acompanhado do novo chanceler designado, José Felix Fernández, que já ocupou o cargo no passado. O veículo ainda expressou que "Franco pede apoio para governar e promete entregar o poder em 2013", quando se encerraria o mandato de Fernando Lugo e quando seriam convocadas novas eleições presidenciais.

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